FUNORTE FACULDADES DE JANAÚBA

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QUILOMBOLAS MOSTRAM SOFRIMENTO ALÉM DA TRAGÉDIA NA BR-122




CATUTI (por Luiz Ribeiro) – Os moradores de Barreiro Branco, distrito de Catuti, no Norte de Minas, celebram nesta sexta-feira, dia 26 de agosto, uma missa de sétimo dia em homenagem às nove pessoas que morreram no acidente com uma van no último sábado na BR-122, em Janaúba. Oito eram integrantes de um grupo de danças folclóricas formado pelas comunidades quilombolas do Vale do Rio Gorutuba e um era o motorista do veículo. Eles estavam a caminho de Montes Claros e iriam se apresentar nas Festas de Agosto.
Na semana seguinte à tragédia, a reportagem do jornal “Estado de Minas” percorreu a região onde vivem os remanescentes de escravos e constatou que o sofrimento se somou aos problemas vividos por um povo acostumado com a pobreza, a seca e a falta de emprego.
São cerca de 5 mil pessoas, ou 750 famílias, espalhadas por 31 comunidades rurais localizadas às margens dos rios Gorutuba, Serra Branca e Ramalhudo, numa região de confluência entre seis municípios: Catuti, Gameleira, Janaúba, Jaíba, Monte Azul e Pai Pedro.

Foto Luiz Ribeiro



Jorge Antunes perdeu o pai no acidente e mostra o prejuízo que teve com a seca deste ano. Posto de saúde está pronto, mas faltam equipamentos para funcionar.




A seca, para Jorge Antunes Barbosa, 48 anos, morador de Malhada Grande, é um castigo imposto aos quilombolas e a outras milhares de pessoas do Norte do estado. Ele relata que no fim do ano passado fez uma roça. Plantou 1 hectare de milho e feijão. “Na hora de a roça vingar, faltou chuva e não colhi praticamente nada”, lamenta o pequeno agricultor, cujo pai, Porcílio Antunes Barbosa, de 73 anos, morreu no acidente de semana passada.
SEM COLHEITA
Simão de Souza, 70 anos, quilombola da comunidade de Santa Rita, perto de Malhada Grande, conta que viveu o mesmo drama da estiagem. Ele disse que fez o plantio de meio hectare, mas não conseguiu colher nada de milho e apenas três sacos de feijão. “Era para ter colhido pelo menos uns dez”, lamenta. Simão ainda consegue se lembrar de uma época em que havia fartura de água na região. “Existiam muitos brejos onde a gente plantava arroz. Hoje, água pra valer mesmo só existe na época das chuvas”, descreve o morador.
Mas não é só a seca que leva tristeza aos quilombos do Norte de Minas. Eles também convivem com a ausência de serviços públicos. Em Malhada Grande, por exemplo, um prédio seminovo, mas abandonado, evidencia o problema. A construção foi concluída em 2008 e seria destinada a um posto de saúde que nunca funcionou, por falta de equipamentos. De acordo com os moradores, existem prédios que seriam para a saúde pública que estão ociosos em cinco localidades de Catuti. A prefeitura do município, conforme os habitantes, alega falta de recursos para a compra de materiais que colocariam as unidades em funcionamento.

Foto Luiz Ribeiro

Mortos em acidente com grupo quilombola também eram vítimas da pobreza, da seca e do desemprego.


LONGE DO SUS
Enquanto a saúde não vem, os obstáculos para chegar até ela são grandes. O atendimento só é oferecido diariamente na sede do município, que fica a 34 quilômetros das comunidades. Francelina Corrêa de Souza, casada com Jorge Antunes, com quem tem quatro filhos, reclama que precisou ir até a cidade em busca de tratamento dentário. “Fui lá duas vezes, mas só consegui arrancar um dente”, conta Francelina, mostrando os dentes estragados.
Sem serviços básicos, os moradores das comunidades optam por buscar uma vida melhor na cidade grande. E o destino escolhido pela maioria é São Paulo. Rufino Fernandes dos Reis, que mora em Barreiro Branco, conta que seus três filhos, Ailso, Alenilso e Roseli, foram para a capital paulista em busca de emprego. “Eles tiveram que sair porque aqui não dá para ficar”, disse. A mulher de Rufino estava na van que bateu na rodovia e escapou ilesa. Mas perdeu o pai, Mariano Matos da Silva, 68 anos, na tragédia.
Sofrimento em um lugar e no outro também. Roseli, 26 anos, filha de Rufino, trabalha como atendente de uma lanchonete na capital paulista e conta que todos os dias acorda às 4h30, pega dois ônibus até chegar ao serviço, onde tem que bater cartão por volta de 7h. Só retorna para casa, na Zona Leste, às 20h. “Se eu pudesse, iria continuar morando com meus pais, mas não tem emprego na região”, afirma. Elciene Antunes Silva, 26 anos, é outra jovem da comunidade quilombola que foi procurar trabalho em São Paulo. Ela também conseguiu emprego em uma lanchonete e trabalha entre as 20h e a 1h. Solteira e mãe de um filho de 1 ano, ela chegou a iniciar o curso de pedagogia em Montes Claros, mas trancou por falta de dinheiro. Tanto ela quanto Roseli voltaram à terra natal para sepultar os parentes.

Foto Oliveira Júnior

Aderbal Costa Filho, antropólogo que estuda a vida dos quilombolas do Gorutuba.


GRUPO FOLCLÓRICO PRÓXIMO DO FIM
Mariano Matos da Silva, 68 anos, era pai de nove filhos e líder dos quilombolas de Barreiro Branco. Era ele quem chefiava o grupo de danças folclóricas da comunidade, que, após as mortes, deve acabar. Elcimar Antunes da Silva, filha de Mariano, diz que agora não há mais estímulo para continuar.
Com 12 integrantes, o grupo mostrava religiosidade e rituais de origem africana por meio de dança batuque, cantos e sapateados nas festas das cidades vizinhas, especialmente nos dias dos Santos Reis, em 6 de janeiro, São Pedro, em 29 de junho, e São Lourenço, em 10 de agosto. Na última semana, eles iam se apresentar pela quarta vez nas Festas de Agosto de Montes Claros.
Com o possível fim do grupo folclórico, os quilombolas tendem também a perder a força de reivindicação. “O grupo de batuque vítima do trágico acidente, tendo à frente o senhor Mariano, uma das principais lideranças do povo gorutubano, promovia com suas apresentações a visibilidade da comunidade e tinha como propósito a garantia dos direitos da comunidade quilombola, sobretudo os direitos territoriais”, avalia Aderbal Costa Filho, antropólogo que fez um doutorado sobre o povo gorutubano na Universidade de Brasília (UnB), em 2008.
Além da preservação da cultura, Mariano tentava buscar melhorias para um povo que, de acordo com os estudos do professor Aderval Costa, a partir da década de 1950 passou a viver confinado, com grande parte de suas terras tomadas por grileiros. Estima-se que as comunidades do Vale do Gorutuba ocupem cerca de 47 mil hectares, mas apenas 3% deste total estão com os quilombolas. O restante está com fazendeiros, sitiantes e especulares.
Nas casas das famílias, a água consumida vem de cisternas de captação de água da chuva, um dos benefícios alcançados pelo antigo líder. “Mas até cesta básica ele arrumava para o pessoal daqui”, relata Germano Cardoso dos Anjos, 62 anos, também morador da região.

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